terça-feira, 23 de outubro de 2007

Saudade (cont.)

Quantas vezes sorrimos ao som daquela lareira? Aquele estalir era único, e aquecia-nos nos Invernos complicados que sempre nos assolaram. Agora, o Inverno já não tem o mesmo estalir...
O teu “bom dia” era saboroso, a tua “boa noite” era acolhedora... O teu beijo fazia-me sonhar tão alto... Gosto de te imaginar no meio da relva, deitado a divagar, não dizias coisa com coisa, e a tua gargalhada entoava no meu coração. A relva era fofa, o ar leve e o calor do sol aquecia o teu olhar. Sempre tiveste um ar de mau, de frio, mas o teu sorriso nunca me enganou, lembro-te terno e suave...
Aquelas tartes da tua mãe, aquele bolo que sabia a nuvens e a caramelo, o café...
A tua mãe sempre teve uma mão bastante prendada, lembraste das vezes que repetias isto? Ela sorria e dizia-se mágica. “Nunca desconfies do poder do amor de mãe”, ar sério e sorriso doce no final. A tua mãe tinha um coração enorme, sempre guardou todos os que comeram um pouco dos seus bolos e provaram o seu café, sempre lhes mimou a alma.
Naquele tempo, os sentimentos eram verdadeiros, sentias realmente tudo o que dizias, saboreavas cada segundo e guardavas. Lembras-te de quando a banda descia o monte e enchia de música os nossos prados, dançávamos, saltávamos, riamos....
Bons tempos, o vento assobiava, as flores encantavam...
Lembraste quando contaste as estrelas? Eu disse-te que ias ficar doente, tava frio e quiseste ir ver o céu, tinha que ser na relva, não quiseste o meu cobertor, dizias tu que o frio te alegrava a alma. O chá da tua mãe fazia milagres, e o mel... Tenho saudades do chá e do mel! Tenho saudades dos dias em que quase podíamos tocar nas estrelas.
Eu gostava da luz da lua, fazia-me bem às divagações... Gostava das seis horas, porque te ia esperar e ouvia as histórias da tua mãe.

O meu mundo...sussurravas tu.


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