Um dia disseste que precisavas de sair dali, abafava-te.
Não levei a peito o que disseste. Mas só agora é que reparo que a partir daí começaste a chegar mais tarde que as seis horas e vinhas com um ar apático e aborrecido.
De dia para dia o teu sorriso parecia mais pequeno e menos dócil.
O encanto foi esmorecendo.
O coração começou a apertar.
Partiste. Foste em direcção à luz.
E eu, fiquei à espera.
Qual Penélope que esperou vinte anos sentada pelo seu Ulisses.
Ela tinha a sua colcha em tricot, que fazia de dia e desfazia de noite, era o seu refúgio e passatempo, talvez assim se distraísse e o tempo passasse mais rápido.
Eu tinha as lágrimas. Aguentava de dia para chorar à noite.
Deitava-me cedo. Não olhava para a janela que me fazia lembrar de tudo, evitava-a a todo o custo. Acho que era aí que o pano caía e eu atirava tudo o que sentia, toda a revolta e toda a tristeza para as paredes do quarto que tanto ouviram, viram e sentiram.
Revistei, vasculhei, virei do avesso a caixa do nosso amor para ver se tinha feito algo de errado. Nada, não encontrava qualquer indício para tal reviravolta.
O meu coração era um autêntico ponto de interrogação e todos os meus pensamentos eram questões retóricas.
Sentia falta do teu cheiro, do teu jeito de sorrir, do teu toque, do teu calor, da tua palavra amiga, do teu coração, da tua mão. Do teu amor.
Foste embora sem deixar carta, bilhete, um adeus ou um simples “tchau”.
Foste. Simplesmente, foste.
As seis horas perderam o encanto. O chá da tua mãe não conseguia curar a ferida que deixaste no meu coração. As palavras voavam na minha imaginação. A tua mãe era a única pessoa que me confortava por instantes, mais ninguém o conseguia fazer.
Sofri.
Sofri qual Penélope. Ulisses saiu para a guerra. Tu, saíste à conquista de um mundo que eu dizia inexistente.
Deixaste um mar de sonhos, um longo sorriso e um belo amor para trás. Correste em busca de algo desconhecido. Qual Peter Pan em busca da sua Terra do Nunca.
Foste meu amigo. Meu amor. Meu companheiro. Meu coração.
Gastei todas as palavras contigo. Tinha para contigo a linguagem mais dócil que conheço. Queria-te do meu lado só para te poder admirar.
Gostava de agarrar todos os teus sentidos. Respirar o teu ar.
Corri atrás de ti. Acompanhei-te, ou tentei. Sugeri que ficasses preso em mim. Gritei, sacudi e caí no tédio de um amor que acabou da pior maneira.
Fugiste de ti, ou talvez de mim, dos problemas, da rotina ou da vida?
Penso que foi a primeira vez que senti que não tinha tecto nem chão. Sonhava mais alto do que podia, acompanhava-te na tua busca desconhecida, imaginava-te em todo o lado. O chão saiu. Fugiu de mim qual meu amor.
A vida, o mundo desmoronaram.
E graças a ti, a nós, ao que fomos, ao que somos, ao que poderíamos ter sido, aos sonhos, aos sorrisos e à partilha que hoje tenho, escrevo e lembro a nossa história.
Escrevemos e editamos a nossa história meu amor.
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sábado, 8 de março de 2008
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