terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Saudade (cont.)

Sabes o que tenho retido nos meus pensamentos (ou mente, ou coração)? Aquelas casas todas em madeira, com janelas enormes que nos mostravam o mundo tal como queríamos, aquelas portas pesadas e altas que do lado de lá nos presenteavam sempre com o cheiro caloroso a lareira com um toque especial a aroma familiar. Era bom, fazia-me sonhar e inspirar cada melodia daqueles aromas como se fossem essências.
E o cheiro a alecrim e a alfazema, lembras-te? Ao correr pelos campos, a passear, o cheiro era já intrínseco, escorregava e alojava-se na nossa pele, era algo que já fazia parte do nosso ser. O ar era puro, tal como o nosso amor.
Gostava de acordar contigo a meu lado, os teus olhos e os meus fundiam-se e o aroma amaciava todas as palavras ditas ou meramente pensadas.
A casa da tua mãe era uma alma quente. Sempre que lá entrava sentia-me novamente criança, com um sorriso repleto de amor, paz, ternura e sonhos feitos de nuvens de algodão e um sol aconchegante e reconfortante. Sentia-me bem, sempre me senti. Saboreava cada palavra, cada expressão que a tua mãe fazia. Era tão dócil, tinha uma sabedoria imensa, e sempre que me vinha embora saía com o coração repleto de calor. O chá da tua mãe não fazia só bem a uma simples gripe mas também à alma, regava-a de esperança e cor. “Faz milagres”. E fazia!
Gosto de me sentir criança, com todo o amor do mundo para dar e receber, algo tão frágil. Dizias que gostavas do meu sorriso terno. Pois para além deste tinha mais, pelo que dizias. Conhecias-me até pelos sorrisos, tinhas um significado para cada um, sabias tudo o que se passava por dentro. Conhecias o meu coração. O meu olhar era o detentor dos meus pensamentos e do meu coração, através dele detectavas tudo, adivinhavas o que sentia e pensava, falavas até em telepatia.
Quando queremos, tornamos a vida bela e harmoniosa. Através de sonhos e esperança.




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